Quando falamos de diferentes Sociedades, na aula de CIM, somos confrontados com a necessidade de reconhecer uma série de Normas especificas, de um determinado Pais ou de uma determinada Religião, como partes integrantes de uma Cultura, por forma, a consciencializar essa realidade tal como ela é. A abstracção, de todos os conceitos e preconceitos naturais da nossa Cultura é, portanto, imprescindível.
Entendo que, de facto, é importante não colidir-mos com as outras culturas quando nos relacionamos com as mesmas, seja de férias, seja em trabalho ou até no, simples, exercício opinativo. Devemos respeitar os outros e as suas regras, libertando-nos dos Tabus, já enraizados pelo processo de sociabilização e enquadrar todos esses hábitos, que nos parecem estranhos, no contexto cultural em questão.
No entanto, para ser honesto, devo referir que há Regras de Conduta de outras Culturas, que por mais que tente, não consigo entender, muito menos respeitar ou até enquadrar contextualmente, nomeadamente as que colidem com o direito à Vida e Liberdade do ser Humano.
Quando recuamos na nossa História verificamos que éramos uns bárbaros: A Monarquia, os Sistemas Feudais, as Cruzadas, a “Santa” Inquisição, as Colonizações do Novo Mundo, o Mapa Cor-de-rosa e a Escravatura foram todas invenções, desumanas, dos Europeus. Desde a Revolução Francesa, a nossa Cultura evoluiu muito em relação aos Direitos Humanos. Não foi uma evolução pacifica, foi uma luta contestatária constante, onde houve derramamento de sangue, mas sem a qual não seríamos o que somos hoje. Actualmente a nossa Cultura continua a ser contestada e, portanto, continua a evoluir, de forma mais pacífica, sem necessidade de grandes Revoluções e Guerras Civis.
Na Era Global já não somos os únicos a Aculturar outras Sociedades…Veja-se que os restaurantes Japoneses, Indianos e Chineses no Ocidente estão, sempre, cheios de Ocidentais.
Certamente há, nas Sociedades menos Democráticas, pessoas com vontade de evoluir Culturalmente. Apesar da contestação, nalguns casos, ainda não ser visível, certamente existe. É nesta perspectiva de Evolução Social, inerentemente, Cultural que apoio as minhas esperanças de vivermos, um dia, num Mundo mais justo, em que o respeito pela condição Humana seja, de facto, um hábito enraizado por todas as culturas.
Assim, o importante é Contestar.
Apesar de ser, propositadamente, “Reaccionária” não resisto a transcrever a coluna “Cartas Abertas", assinada por Sua Excª. o Comendador Marques de Correia, publicada na Revista Única do semanário Expresso, de 14 de Outubro de 2006:
“ O cânone do contestatário “
“ Meu Caro Magnífico Reitor
Acabo de descobrir uma lei da ciência, embora das ciências humanas, que merece um registo, senão até uma tese inteira, ou mesmo uma cátedra. Esta lei baseia-se em premissas observadas e comprovadas cientificamente e pode ser resumida, como quase todas as leis, a uma equação simples que eu descreveria, compactamente, da seguinte forma:
C = OC (niq)+A(nisc)
Onde C significa o contestatário; OC está por objecto da contestação; e A corresponde a argumento.
Assim, podemos descrever a fórmula do seguinte modo: Contestatário igual a Objecto de Contestação ( não importa qual ) mais Argumento ( não interessa se contraditório ).
À primeira vista, isto pode não parecer qualquer avanço científico. Porém, se analisarmos melhor o problema, chegamos à conclusão de que o contestatário não depende daquilo que está a contestar, mas sim do facto de querer contestar.
Nos tempos que me dediquei ao trabalho de campo descobri vários exemplos práticos e retirei diversas conclusões. Certos casos ocorrem imediatamente. Veja-se o seguinte:
Um contestatário, por norma, opõe-se à tradição religiosa de uma dada comunidade. É o caso dos contestatários do Sul da Europa em relação ao catolicismo. Porém, esse mesmo contestatário, no geral, defende que se respeite escrupulosamente as tradições religiosas de outras latitudes, porque essa é a forma mais simples de contestar a sociedade em que vive.
Outro ponto: um contestatário é, no geral, contra o casamento. Acha que a instituição é burguesa, ultrapassada, sem nenhum significado jurídico e menos significado emocional. Porém, o mesmo contestatário é um feroz adepto do casamento se este for entre homossexuais. Nesse caso, acha-o um direito inalienável. Mais: acha que o termo casamento é a palavra exacta, o registo jurídico insubstituível e o logos emocional preciso para designar a união de dois seres.
O mesmo se passa, grosso modo, em relação à autoridade. O contestatário, no geral, acha a autoridade a raiz dos maiores problemas do mundo. Não só o excesso de autoridade é verberado como qualquer autoridade é criticada. Porém, qualquer lei que retire um pouco de autoridade a um dado grupo social é igualmente alvo da maior contestação por parte do contestatário.
É por isso que o contestatário da minha fórmula é igual ao objecto da contestação. Ou seja, ele está onde há contestação a um determinado assunto, sendo que essa contestação utiliza argumentos que no geral são contraditórios com outros utilizados pelo contestatário.
Significa isto, em termos gerais, que existe um «Cânone do Contestatário», um método que se vai repetindo independentemente do que fazem ou deixam de fazer os contestatários. Vista a essa luz, a contestação é inerente, intrínseca. E a sua hermenêutica, a sua interpretação, passa a ser feita à luz desta fórmula. E assim vai nascendo a Contestatologia, ou a nova ciência que estuda a contestação.”
VIVA A CONTESTAÇÃO! VIVA O CONTESTATÁRIO! VIVA A "CONTESTALOGIA" – DIGO EU